Futebol de várzea não é trampolim político

O futebol de várzea é, por natureza, um espaço de autenticidade. Nos campinhos de terra batida, entre buracos e irregularidades, o jogo flui com uma pureza que dispensa luxos. É ali, longe dos holofotes e dos contratos milionários, que o esporte revela sua essência: um jogo de paixão, coletividade e superação. No entanto, nos últimos tempos, essa simplicidade vem sendo invadida por um elemento estranho: a politicagem.

Não é difícil encontrar, em bairros periféricos ou comunidades carentes, políticos sorridentes posando ao lado de gramados sintéticos recém-instalados. Eles chegam com promessas de “modernização” e “melhoria”, mas, na maioria das vezes, suas intenções são tão artificiais quanto o material que cobrem o chão. O gramado sintético, em si, não é o problema. Ele pode, de fato, trazer benefícios, como a possibilidade de uso contínuo e a redução de custos com manutenção. O problema está no uso oportunista dessa estrutura como palanque eleitoral.

Esses políticos, muitos dos quais nunca pisaram em um campo de várzea, aparecem em fotos bem produzidas, de terno e gravata, como se fossem os grandes benfeitores do esporte amador. Eles falam em “investir no futuro dos jovens” e “promover a inclusão social”, mas, na prática, suas ações se resumem a inaugurações relâmpago e discursos vazios. Passadas as eleições, muitos desses campos são abandonados, sem manutenção adequada ou projetos que realmente integrem a comunidade.

O pior é que essa estratégia funciona. O futebol de várzea, por ser tão querido e presente no cotidiano das pessoas, acaba se tornando uma ferramenta fácil para ganhar votos. Os políticos sabem disso e exploram ao máximo a emoção que o esporte desperta. No entanto, o que eles não entendem (ou preferem ignorar) é que o futebol de várzea não precisa de salvadores da pátria. Precisa, sim, de respeito, investimento contínuo e políticas públicas sérias que valorizem o esporte como ferramenta de transformação social.

Enquanto isso, os verdadeiros heróis do futebol de várzea seguem na luta. São os técnicos voluntários, os jogadores que dividem o tempo entre o trabalho e o treino, os pais que organizam campeonatos para manter os jovens longe das ruas. Eles não aparecem na TV, não têm fotos em outdoors, mas são os responsáveis por manter viva a chama do esporte nas comunidades.

Portanto, é preciso olhar com desconfiança para aqueles que usam o futebol de várzea como trampolim político. O gramado pode ser sintético, mas as intenções por trás dele precisam ser genuínas. O futebol de várzea merece mais do que inaugurações de fachada; merece respeito, compromisso e, acima de tudo, amor pelo jogo. Afinal, como dizem os torcedores mais antigos: “De grão em grão, a galinha enche o papo”. E, no caso da politicagem, é melhor não deixar o papo encher demais.

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